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    Início » Angolana escolhe Maricá para viver e história da cidade vira tema de livro
    Cultura

    Angolana escolhe Maricá para viver e história da cidade vira tema de livro

    Luisete Furtado tem três livros escritos sobre Maricá e está expondo na Flim
    Luciana BorgesBy Luciana Borgesnovembro 10, 2024Updated:novembro 11, 2024Nenhum comentário14 Views
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    “Maricá é uma cidade que tem o dom do acolhimento. Quem chega e quer trabalhar é acolhido, prospera e se fixa nesse lugar. Maricá tem o meu coração”. Assim definiu a escritora Luisete Furtado, nascida na Angola, ao falar da cidade que escolheu para viver após fugir de uma guerra civil, ver o noivo ser assassinado, estudar em Portugal e chegar ao Brasil em busca de paz. Presente na Festa Literária Internacional de Maricá (Flim), a professora aposentada está expondo seus três livros – dois sobre o folclore maricaense e um sobre a história do município.

    Atualmente com 81 anos, Luisete conta que nasceu em uma realidade em que o país africano ainda era colônia portuguesa. A jovem sonhadora foi estudar História no país colonizador e, ao retornar para Angola, ajudou a escrever e estruturar disciplinas do Estado recém independente.

    “Era muito difícil, naquela época, ter acesso a estabelecimentos de ensino. Fui alfabetizada pela minha mãe e o gosto pela leitura eu aprendi com ela. Durante seis anos eu estudei História em Portugal. Quando eu me formei, voltei para trabalhar no meu país. Durante nove anos, fizemos toda uma preparação para a transição de Angola de colônia para país independente. Numa determinada época, eu dava aula para professores que estavam estudando para poderem ensinar a história da Angola, geografia, literatura, filosofia, religiosidade”, contou Luisete.

    Por conta da guerra civil, o noivo da professora foi assassinado. “Poucos dias antes de eu me casar, mataram o meu noivo. Aí eu me convenci que eu estava na lista de execução porque eu não pertencia ao partido político. Peguei minha irmã menor, minha cachorra e um aluno e viemos para o Brasil”, lembra a autora.

    Ao chegar em terras tupiniquins, Luisete foi primeiro para São Paulo, depois migrou para Campo Grande, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Foi aí que Maricá entrou na história da escritora. “Meu marido trabalhava com uma pessoa que tinha família em Bambuí e nos convidou para conhecer. Meu marido se apaixonou pelo lugar. No alto de um morro, mesmo sem luz, ele comprou seis terrenos e construiu um sítio de Bambuí. Dez anos depois, comprei um terreninho e construí minha casa aqui no Centro. E esse é o meu país, esse é o meu reino”, relata.

    História e Folclore de Maricá

    A autora está expondo seus livros na Festa Literária Internacional de Maricá (Flim), que acontece até o próximo domingo (10/11). O primeiro, “Maricá: da pré-história aos tempos de petróleo e gás”, faz um resumo de toda a história do município – a autora revela que este é o seu “xodó”, o livro que mais gostou de escrever.

    “O primeiro livro demorou mais tempo a ser gerado. Ele é uma homenagem que eu faço ao povo dessa cidade, ao acolhimento. Depois veio o Folclore I, com lendas indígenas, tradições, costumes, trazidos pelo português invasor e lendas africanas pelas quais estou apaixonada. A junção dessas lendas, dessas tradições, desses provérbios, é que forma a cultura de Maricá. O povo maricaense é um povo miscigenado. Tem sangue índio, tem sangue português e tem sangue angolano da África, de Moçambique. Os livros que eu escrevi foram minha válvula de escape para eu sobreviver. E continuam sendo. Escrever se torna um vício, assim como a leitura”, revelou.

    A angolana comentou a participação de compatriotas em uma roda literária. Na última quarta-feira (06/11), o escritor e cineasta Ondjaki participou de uma roda literária para falar sobre as raízes da África. Na terça-feira (05/11), os também angolanos Valter Hugo Mãe e José Eduardo Agualusa estiveram em um bate papo sobre identidade cultural, literatura e racismo.

    “É muito necessária essa junção de diferentes saberes, de diferentes vivências para que nós possamos entender que nós não somos um só, somos uma coletividade. Quanto mais debatermos as nossas raízes, as diferentes culturas das quais nós somos herdeiros, mais fácil fica a nossa convivência. É essa convivência que temos que estimular nas escolas, nos museus e, logicamente, em um espetáculo desses – que é a Flim”, concluiu Luisete Furtado.

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