Documentos analisados pela Polícia Federal (PF) apontam que o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) figurava como usuário master de uma conta bancária da Alcazar Holdings, empresa que possuía participação em um jato executivo utilizado por ele em uma viagem aos Estados Unidos, em janeiro de 2025.
A informação consta de um relatório produzido no âmbito das investigações sobre desvios no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), a partir de arquivos extraídos do iCloud do advogado Willer Tomaz. O caso foi divulgado pela jornalista Malu Gaspar, em reportagem com Yago Godoy e Johanns Eller.
Segundo os investigadores, o perfil de usuário master permitiria um nível elevado de acesso e gerenciamento da conta mantida no Santander. Flávio e Willer negam ter compartilhado uma conta bancária ou mantido qualquer vínculo financeiro ou societário.
E-mail ao Santander é citado na investigação
A conta estava registrada em nome da Alcazar Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, que tinha Willer Tomaz como único sócio.
Entre os documentos examinados pela PF está um e-mail enviado em 22 de maio de 2025 pela secretária do advogado, Fayla Menezes, a gestores do Santander. Na mensagem, ela solicitava a inclusão de um novo usuário com perfil master e a retirada de contas vinculadas ao cadastro.
Flávio Bolsonaro e uma conta pessoal de Willer Tomaz apareciam entre os nomes relacionados no pedido.
Na resposta, enviada às 10h21 do mesmo dia, o banco informou que as contas haviam sido excluídas do contrato, conforme solicitado.
Para os investigadores, a troca de mensagens indica que o nome do senador permanecia vinculado ao cadastro até maio de 2025. A defesa de Flávio, por outro lado, sustenta que a vinculação era indevida e que o e-mail demonstra justamente a solicitação para corrigir a situação.
Empresa tinha participação em avião utilizado pelo senador
A Polícia Federal também analisa uma possível relação econômica indireta entre Flávio Bolsonaro e a estrutura empresarial responsável pelo jato executivo Embraer Legacy 650, de matrícula PP-NLR.
A Alcazar Holdings detinha 33,33% da Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A., proprietária da aeronave adquirida em 2023.
Na época da viagem do senador aos Estados Unidos, os outros cotistas eram Laerte Cosentino, dono da Totvs, e a Prime You, empresa que teve Daniel Vorcaro entre seus sócios.
Segundo o relatório, a presença de Flávio na documentação bancária com perfil de usuário master poderia indicar acesso operacional relevante e justificar o aprofundamento da apuração sobre uma eventual participação econômica ou societária de fato.
Essa hipótese é contestada pelo senador e pelo advogado.
Viagem aos Estados Unidos ocorreu em janeiro de 2025
Flávio Bolsonaro utilizou o Legacy 650 em uma viagem de ida e volta entre Brasília e Fort Lauderdale, na Flórida, em janeiro de 2025.
A utilização da aeronave foi revelada pela revista piauí em setembro de 2026. Na ocasião, o senador afirmou que havia viajado como convidado de Willer Tomaz, a quem descreveu como amigo.
O advogado declarou que desconhecia a participação da Prime You na propriedade do avião e sua ligação com Daniel Vorcaro.
A PF busca esclarecer se a relação do senador com a aeronave se limitava à condição de passageiro ou se existia algum vínculo econômico indireto com as empresas envolvidas.
Investigação reúne registros de outras viagens
Os documentos analisados também apresentam informações sobre viagens realizadas por Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz ao longo de 2025.
Em março, os dois participaram de um safári na África do Sul, acompanhados do senador Weverton Rocha (PDT-MA), também citado em investigações relacionadas ao caso do INSS.
Arquivos extraídos do celular do advogado indicam ainda que a Cathedral Holding teria atuado como intermediária na compra de passagens para viagens envolvendo Tomaz, Flávio e familiares do senador.
Também foram identificados registros de reservas de voos executivos na Europa.
Uma viagem prevista para 11 de abril de 2025, entre Lisboa e Nice, incluía Flávio, Willer e suas respectivas esposas. Outra reserva, para 23 de maio, previa um deslocamento entre Cascais, em Portugal, e Nice, na França, com a presença do senador, sua mulher, Fernanda Bolsonaro, suas filhas, além do advogado, familiares e outros passageiros.
Segundo a reportagem, Mônaco, localizado próximo a Nice, seria o destino final previsto.
Willer Tomaz afirmou que os deslocamentos foram viagens de lazer, com familiares convidados, sem pagamento ou qualquer contrapartida.
PF encontrou registros de conversas em aplicativo privado
A análise dos dados extraídos do celular de Willer Tomaz também identificou conversas com Flávio Bolsonaro por meio do Confide, aplicativo de comunicação privada que utiliza criptografia e mensagens temporárias.
De acordo com a PF, o número do senador aparecia entre os contatos favoritos do advogado.
A plataforma oferece recursos de privacidade, como eliminação de mensagens e mecanismos destinados a impedir capturas de tela.
Os registros integram o material examinado pelos investigadores para compreender a relação entre os envolvidos.
Aeronave também foi utilizada por Alexandre de Moraes
O mesmo Legacy 650 foi utilizado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e por sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes, em agosto de 2025, conforme reportagem do colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo.
O material citado na apuração também menciona negociações envolvendo Daniel Vorcaro e Viviane Barci de Moraes.
Segundo os documentos relatados, havia um contrato de R$ 50 milhões relacionado à cessão da participação da Prime You e outros R$ 10 milhões destinados à manutenção da aeronave, referentes a serviços não especificados.
O escritório Barci de Moraes Associados, de Viviane e dos filhos, também havia firmado um contrato de R$ 131 milhões com o Banco Master. Desse valor, R$ 80 milhões teriam sido pagos, conforme as informações apresentadas na investigação.
Vorcaro foi sócio da Prime You entre setembro de 2021 e setembro de 2025.
Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz negam vínculo financeiro
Em manifestação à reportagem, a assessoria de Flávio Bolsonaro afirmou que o senador nunca manteve conta bancária compartilhada com Willer Tomaz ou empresas do advogado.
A defesa sustenta que os documentos não comprovam participação financeira ou societária e que o pedido enviado ao Santander demonstra a correção de uma vinculação considerada indevida.
Willer Tomaz também negou qualquer relação financeira com o senador, afirmando que os dois mantêm apenas uma amizade.
O advogado contestou a interpretação dos investigadores sobre os registros bancários e declarou que as viagens realizadas com familiares ocorreram sem pagamento ou contrapartida.
Tomaz classificou a divulgação dos documentos como vazamento criminoso e afirmou que pretende buscar a responsabilização dos envolvidos na Justiça.
As informações reunidas pela PF fazem parte de uma investigação em andamento. A presença do nome do senador nos documentos bancários, por si só, não comprova participação societária nem envolvimento em irregularidades.

